3 perguntas sobre discriminação racial para Isis Garcia, secretária de Combate ao Racismo da CUT-RS

Neste 13 de maio, conversamos com a secretária de Combate ao Racismo da CUT-RS sobre a atual situação de trabalhadores negros e negras. Confira o que ela trouxe para a discussão:
Pergunta: O racismo no ambiente de trabalho muitas vezes aparece de forma velada, em piadas, desconfiança sobre competências ou barreiras à promoção. Como essas situações se manifestam hoje no mundo do trabalho e quais são os impactos na vida profissional e na saúde mental de trabalhadores e trabalhadoras negros(as)?
Isis: Então, hoje, um dos maiores impactos está na seleção natural dos setores de Recursos Humanos. Quando tu vais tratar de uma contratação de um trabalhador ou trabalhadora negra, ela/ele vai sendo submetida(o) a critérios que muitas vezes são inatingíveis, como um currículo. Tu, como trabalhador, vais tentar te enquadrar num determinado currículo, que tu tens a pretensão de executar naquela empresa, naquele setor público, naquele banco, naquela fábrica. Essa questão, ela é nitidamente vista quando a tua realidade, quando o trabalhador negro, que não tem o mesmo acesso, ele é engessado somente dentro de um currículo de qualificação teórica, e essa pessoa que é racializada por ter a cor da pele não dentro dos padrões pré-estabelecidos pelo modelo social, ela já é excluída na porta. Porque ela não teve o mesmo acesso aos estudos, mesmo acesso à mobilidade urbana, mas ela tem competência. Então, eu acho que os recursos humanos têm que humanizar a pessoa. Em que sentido: aquela pessoa que eles entrevistam, que eles veem que tem vontade e capacidade de executar a função que aquela empresa contrata, ela tem que ser vista de uma maneira justa. Se se prenderem só ao documento teórico e curricular desse profissional, a população negra dificilmente entrará. Ou, se ela entrar, ela vai ser única dentro de uma gama de funcionários que naturalmente são incluídos só pelo fato de terem o estereótipo adequado da visão daquela instituição. Então, eu acredito que nós temos que rever isso, o conceito de recursos humanos, até onde ele humaniza e até onde ele exclui.
Pergunta: Quando olhamos para o recorte de gênero, as mulheres negras costumam enfrentar uma dupla discriminação: por raça e por gênero. Como essa realidade aparece nas relações de trabalho e quais são os principais desafios para garantir igualdade de oportunidades para essas trabalhadoras?
Isis: Bem, quando a questão afeta as mulheres negras, por sermos racializadas, a exclusão se dá em cima de um perfil fenótipo. A mulher negra ou preta, com a qual eu me identifico, geralmente ela não está nos padrões físicos que uma empresa – aqui no Rio Grande do Sul, principalmente, que parte do princípio que a nossa descendência é europeia, e as mulheres negras, elas não têm a característica da mulher europeia, que é o cabelo liso, o olho claro e a pele branca. Geralmente, as mulheres aceitas por esse modelo, elas têm um corpo mais esguio, enquanto as mulheres negras, geralmente, são mais corpulentas, e isso, por uma empresa que parte do princípio de um olhar eurocêntrico, ela já é impedida, porque ela tem mais curvas. Ela vai ser hipersexualizada, que é o que acontece com a mulher negra no ambiente de trabalho. As pessoas não sabem elogiar uma mulher negra sem salientar alguma parte do corpo dela ou levar para aquela objetificação de quase um alimento. Como eu posso explicar isso? “Ah, ela é gostosa”. Ou ela é aquela mulher que fala alto. E nós já explicamos mil vezes que nós não falamos alto, nós falamos firme. Mas quando uma mulher da pele branca fala alto, eles remetem à descendência europeia dela. Por exemplo, ela é italiana, então os italianos falam muito alto. Só que nós estamos falando em relação de trabalho. Não sobre o que acontece na casa dela, entre seus seus entes queridos, suas familiares. Ela está falando no trabalho. Então, da mesma maneira que a mulher preta é cobrada até pelo seu tom de voz, que é firme, mas não é gritando, a mulher branca é entendida e respeitada, às vezes por um ímpeto, por por começar a falar alto, por por se emocionar, ou às vezes até por estar descontente. Que que a gente vê nitidamente? Que isso, essa questão do descontrole e da agressividade, ela é jogada para nós, mulheres pretas, porque nós somos sutilmente animalizadas. Nós não podemos estar tristes, que nós estamos bravas. Nós não podemos falar firme, que nós estamos gritando. E, consequentemente, já vem sempre uma pessoa da pele branca dizer “olha, só ouço a tua voz”, ou “olha, não grita”, como se a nossa explicação não fosse suficiente. Por eles terem um olhar com uma falta de educação e respeito em relação a nós. Isso tem que ser tratado de uma maneira muito séria e muito eficiente para que esse olhar em relação a nós, mulheres negras, mude. Outra coisa em relação à nossa aparência no vestuário. Mulheres negras, geralmente, como são mais avantajadas de corpo, elas usam mais vestidos soltos do que uma calça apertada. Elas usam saltos que são mais confortáveis por ter aquela sobrecarga do corpo que geralmente a mulher branca, da pele branca, não tem. O nosso cabelo, que é a questão de nós usarmos ou o cabelo natural ou o cabelo que a gente escolha ter, que é a questão das tranças. As tranças têm um significado ancestral para nós, mulheres, porque as nossas ancestrais salvaram milhares e milhares de escravizados de uma condição à morte, ao extermínio, para fugir da escravização, ninguém aprendeu isso na escola. Então as pessoas confundem uma trança com um penteado qualquer, como se fosse uma mulher da pele branca que resolveu fazer um coque e aquele coque não ficou bem para ela. Não é isso que é para nós, mulheres pretas. Então, está ligado ao olhar do empobrecimento das nossas mulheres: acham que trança é uma coisa barata e que está ligado também a, de uma certa forma, condições de saneamento básico residencial que eles acham que a maioria das mulheres negras vive. Existe uma classe média negra que tem todo o acesso, que tem condições de ter uma boa casa, um bom banheiro, um bom chuveiro, tem acesso a produtos de beleza que são relativamente caros, e isso nos é invisibilizado pelo sistema da branquitude. Então perguntam como a gente lava o cabelo, quase como a gente vive, porque essas pessoas não têm conhecimento e elas vivem num mundo da branquitude. É preciso formação, letramento, e uma reeducação no tratamento das pessoas da pele branca para nós, pessoas pretas racializadas.
Pergunta: Qual é o papel dos sindicatos e das políticas públicas no enfrentamento ao racismo no trabalho? Que tipo de ações podem apoiar trabalhadores e trabalhadoras que sofrem discriminação racial e promover ambientes de trabalho mais justos e inclusivos?
Isis: O papel dos sindicatos é sair da sua zona de conforto e se comprometer realmente em uma política antirracista estratégica. Por que eu digo isso? Porque quando o pacto da branquitude é feito – e o que é o pacto da branquitude: é aquele olhar para o seu igual. Então, consequentemente, aqueles diferentes das pessoas que constroem esse pacto e que firmam esse pacto, não enxergam de uma maneira real e justa que o Estado brasileiro foi estrategicamente moldando as relações sociais entre pessoas da pele branca e pessoas da pele preta. Nesse sentido, o movimento sindical tem que se comprometer com a organização do trabalho, que é um modelo das relações. Então, nós temos que ser o espelho de um modelo de uma relação justa e saudável para todos nos seus locais de trabalho. Para que isso aconteça, cada sindicato tem que ter o compromisso de ter uma premissa antirracista. Isso tem a ver com a inclusão de pessoas racializadas nos quadros de direção, nas pessoas que são representantes no seu local de trabalho, fazer através de formação essa mudança nas relações conflituosas, não questionar quando pessoas da pele preta estão entrando nos setores, não estereotipar quando mais de uma pessoa preta está num local de trabalho, de ter uma linguagem escravocrata de se chamar de senzala, de navio negreiro, de outras tantas violências que o racismo recreativo valida. Para que isso aconteça, nós que somos dirigentes sindicais, nós temos que exigir no nosso quadro funcional, no nosso quadro de direção, o mínimo, mínimo, mínimo de 30% nos ramos. Pelo menos um rosto preto de fato, com fenótipo, com a cor da pele, para que aqueles que estão nos ramos se enxerguem. É muito importante a gente ter um olhar de representatividade nos ramos. Esse é o trabalho que eu, como Secretária de Combate ao Racismo, procuro construir nos nossos sindicatos. O sindicato, ele é um território ancestral, porque quem construiu – vamos falar de um grosso modo – quem construiu as paredes da maioria desses sindicatos foram pessoas racializadas e escravizadasmuitas vezes. Então nós devemos isso a essas pessoas que não tiveram a oportunidade de estar coabitando no ambiente construído por elas. Só construíam e não eram recebidas para fazer parte daquele espaço. Temos muito o que fazer, eu acho que nós temos que falar sobre uma política antirracista, exigir dos nossos governantes, exigir das nossas gestões sindicais, exigir das diretorias, das centrais, para que isso seja tratado de uma maneira a transformar as relações nos ambientes de trabalho. Mais uma vez eu digo, o sindicato é o espelho de uma sociedade. Se eu não me sinto representada naquele sindicato, naquele lugar, como que eu vou ter vontade de me sindicalizar, de fazer parte? Então, aí são os caminhos: cada um e cada uma tendo, sendo racializado ou não, compromisso com uma política antirracista que vai além das relações pessoais, vai das relações de trabalho, vai na questão da autonomia financeira, vai na questão de uma valorização social e não segregatória. Então é isso.